Aracy de Almeida, cantora, interpretou como ninguém os versos geniais de Noel Rosa

0
Powered by Rock Convert

 

 

 

 

Aracy de Almeida (Encantado, Rio de Janeiro, 19 de agosto de 1914 – Rio de Janeiro, 20 de junho de 1988), cantora carioca, artista extraordinária que, com uma voz fraca, soube interpretar como ninguém os versos geniais de Noel Rosa. A cantora Aracy de Almeida morreu em 1965, quando gravou seu último disco. Desde então, vem morrendo lentamente a obra dessa artista, de voz de taquara rachada. As 400 músicas que Aracy gravou estão em discos esgotados há décadas ou em antologias descuidadas.

À melancólica agonia de sua obra (que não desperta nenhum entusiasmo nas gravadoras e nas repartições públicas de cultura oficial), a jurada de programas de televisão Aracy de Almeida – a alegre, desbocada e debochada “Araca do Balacobaco”. Divertida matrona que, depois de reclamar com ironias cortantes das roupas espalhafatosas e dos gestos extravagantes do calouro, assinava a sentença de morte do candidato a artista. “Meu filho, cantar é aqui ó, no gogó. Você não tem gogó, sai dessa”, dizia Aracy, caprichando na entonação malandra. Era irresistível: até o calouro ria.

A cantora e a jurada eram a mesma pessoa, embora tenham atuado em meios aparentemente diversos. O que tem a ver a música de Noel Rosa com o júri de Silvio Santos? Aracy unia esses dois mundos com sua graça popularesca, sua sinceridade espontânea, com o bom humor em que dizia suas verdades. Nascida Aracy Teles de Almeida em 1914, no subúrbio do Encantado, no Rio de Janeiro, filha de um pastor protestante que era chefe de trens na Central do Brasil, ela começou a cantar, ainda menina, na Igreja Batista do Méier. Entre o Encantado e o Méier passou a maior parte de sua vida circulando num meio provinciano em que a boêmia, a arte e o trabalho formavam um todo.

Em 1933, Aracy estreou no rádio, conheceu e se tornou grande amiga de Noel, o artista maior que inventou em música um jeito risonho e franco – mas algumas vezes trincado pela melancolia – de ver o subúrbio carioca, o país e a vida. No mesmo dia em que se conheceram, o compositor fez para Aracy a música Seu Riso de Criança. Noel reconheceu na “escurinha”, como a chamava, a cantora ideal para o seu inspirado coloquialismo. Foi Aracy a primeira a gravar as obras-primas O X do Problema e Palpite Infeliz. Para ela, também Ari Barroso fez Camisa Amarela. E, reza a lenda, dias antes de morrer de tuberculose, em 1937, Noel compôs para Aracy Último Desejo.

Aracy sobreviveu à morte de Noel e tornou-se a sua grande divulgadora. Nos anos 60, com a voz enrouquecendo, cansada e sentindo que a MPB tomava outros caminhos, afastou-se dos palcos e das músicas. Mantendo a alegria de viver e de criar, passou para a televisão. Vivia com seus cachorros num casarão no Encantado, passava longas temporadas num hotel de amigos em São Paulo e dava a impressão de se divertir à beça – principalmente em mesas de bares. Gostava de lembrar de Noel e falava pouco de sua vida particular. No máximo, dizia que viveu um tempo junto com Rei, goleiro do Vasco, mas que para ela “o homem ideal nasceu morto”. Desde o começo de 1988, a saúde de Aracy lhe pregou peças: pneumonia e problemas respiratórios. Na tarde de segunda-feira, dia 20 de junho de 1988, aos 73 anos, morreu de embolia pulmonar no Hospital dos Serviços do Estado, no Rio de Janeiro.

 

(Fonte: Veja, 29 de junho, 1988 –- Edição 1034 –- DATAS –- Pág; 101)

 

 

 

 

 

 

Powered by Rock Convert
Share.