Samuel Taylor Coleridge (Ottery St. Mary, Reino Unido, 21 de outubro de 1772 – Highgate, Reino Unido, 25 de julho de 1834), poeta e filósofo inglês, considerado, ao lado de seu colega William Wordsworth, um dos fundadores do romantismo na Inglaterra.
Autor de um dos poemas mais famosos, poderíamos dizer, falta, talvez, algo do charme imediato dos outros românticos ingleses o júbilo natural proto-hippie de Wordsworth, o esteticismo elaborado de Keats, o ardor poético/político de Shelley, o visionarismo quase louco de Blake, o humor ácido de Byron o que talvez justifique o interesse reduzido do público por sua obra. Mas quem já leu o seu longo The Rime of the Ancient Mariner, ou A Balada do Velho Marinheiro, como é conhecido em português (o outro poema mais popular de Coleridge, que ganhou homenagem inclusive até pelo Iron Maiden) já pôde averiguar o talento do poeta que chegou a influenciar tanto Wordsworth quanto Keats e Shelley, bem como, mais tarde, também Edgar Allan Poe e pode provavelmente imaginar o baque que essa sinistra viagem proto-simbolista deve ter causado nos leitores acostumados ainda a uma poética neoclássica do final do séc. XVIII. Não por acaso, a reedição de 1834 da Balada incluía, além da revisão de algumas estrofes, uma glosa em prosa à margem do texto explicando o que acontecia em cada momento do poema.
Kubla Khan é também um poema bastante viajado, por assim dizer: fruto de um sonho psicodélico de Coleridge (que, como bem se sabe hoje, fazia uso pesado do ópio) numa noite em que ele lia um relato de viagem sobre a ida de Marco Polo à China, o poema se constrói como uma visão fragmentária de Xanadu (ou Shang-du), a capital de veraneio do imperador mongol da China do século XIII, Kublai Khan, neto de Gêngis Khan. Famosamente, a composição do poema se deu, a princípio, com a tentativa de Coleridge de se lembrar de seu sonho alucinado; depois, após uma interrupção social que o impediu de se lembrar do restante do sonho, ele compôs a segunda parte.
Na primeira parte, então, temos uma representação desse lugar que é Xanadu em parte inspirada pelo livro sobre Marco Polo e, em boa parte, fictícia, considerando que não existe um rio Alph na China, mas trata-se, segundo um comentador, de uma transposição do rio grego Alpheu , ao que se segue uma descrição da nascente (encantada e violenta) desse sacro rio Alph. Depois, na segunda parte, dá-se a tentativa de Coleridge de rememorar a música que ele ouviu em sua visão (na voz de uma outra pessoa, a de uma donzela abissínia), que leva a um encerramento metapoético, uma vez que, segundo o eu-lírico do poema, tal canção seria capaz de reconstruir no ar o milagre do domo ao sol com grutilhões de gelo a união da cúpula ao sol construída por Kubla, portanto, artificial e civilizada, com o mundo natural das grutas de gelo subterrâneas reveladas pela violência do rio. Os últimos versos descrevem, por fim, qual seria a reação das pessoas que testemunhassem esse feito, com uma imagem de um profeta de tom bíblico. Apesar de seu caráter fragmentário (Coleridge pretendia fazer dele um poema mais longo), trata-se de um poema que pode ser lido como completo e acabado em si, o que não é um fenômeno raro entre os românticos vide ainda, por exemplo, o Don Juan de Byron, O Triunfo da Vida, de Shelley, o Hipérion de Keats, ou o grande poema sem nome que Wordsworth jamais concluiu, do qual O Prelúdio, O Recluso e A Excursão seriam parte. Sua composição data de 1797 (sendo, assim, anterior até mesmo às Baladas Líricas), mas ele só vê a luz do dia muito tardiamente (apesar de ter sido lido em jantares e reuniões particulares muito antes de sua publicação) em 1816 quando recebe uma maioria esmagadora de resenhas negativas, ainda que o seu prefácio tentasse evitar a crítica ao afirmar que a publicação do poema se dava mais por interesses psicológicos do que pelos seus méritos poéticos. E então, meio que para compensar isso, ele é publicado junto de um outro poema que, supostamente, deveria ser melhor (The pains of sleep), mas que de modo algum me parece ser o caso.
Formalmente, Kubla Khan é um quebra-cabeças estranho: os esquemas de rimas são irregulares (especialmente na última estrofe), e a métrica oscila entre tetrâmetros e pentâmetros jâmbicos, como em In Xanadu did Kubla Khan e A sunny pleasure-dome with caves of ice!, respectivamente. Mas ele também substitui, em alguns versos, o tetrâmetro jâmbico por trocaico, omitindo a primeira átona e começando o verso com uma tônica, como é o caso de Floated midway on the waves ou In a vision once I saw. Em minha tradução, mais uma vez, foi esse aspecto rítmico que visei reconstituir. Até o término do meu trabalho, eu não havia ainda tido contato com a tradução de Alípio Correia de Franca Neto (encontrada em A Balada do Velho Marinheiro, pela editora Ateliê, juntamente com um comentário crítico, mais elaborado do que o meu, e uma tradução também do longo poema que dá título ao volume). Vendo-a agora, nota-se um projeto de tradução bastante diferente (mais claro semanticamente, eu diria) e, na minha opinião, muito bem executado o que não pode ser dito da única tradução do poema que eu conhecia até então, a de José Lino Grünewald (presente no infame volume Grandes Poetas de Língua Inglesa do Século XIX), que prefiro não comentar, tampouco reproduzir.
Por último, mas certamente longe de ser menos importante, vem a tradução que eu descobri mais recentemente, e, assim, aproveitando mais uma chance de celebrar os dons do grande recém-falecido, reproduzo também uma tradução de Décio Pignatari de Kubla Khan uma tradução que, diga-se de passagem, é a menos ortodoxa de todas as três. Ela se encontra em seu volume de poesia reunida Poesia Pois É Poesia, junto com traduções de Valéry, Bashô, Horácio, Goethe, Rilke, Browning, etc., e, apesar de descartar algumas coisas importantes para o sentido do poema (como a união entre as cavernas de gelo com os domos ao sol que consiste no grande milagre do poema, mas que, na tradução de Décio, parecem estar separadas), supera a todos nós no quesito invenção (especialmente na última estrofe), além de compor versos belíssimos.
(Fonte: http://www.caras.uol.com.br – 26 de maio de 2011 – EDIÇÃO 916 – Citações – ANO 18)
(Fonte: http://escamandro.wordpress.com/2012/12/09/kubla-khan-coleridge – Por Adriano Scandolara – 09/12/2012)
(Fonte: shadowstosoul.blogspot.com/…/traducao-kubla-khan-de-samuel-taylor)
- Samuel Taylor Coleridge, comumente designado por S. T. Coleridge.


